Vamos lá, mais uma vez. Unidade, dezena, centena. Dizia a estagiária da professora no sótão da escola. Reforço de matemática, devia ter uns oito anos talvez. Neuro Divergente – achei bonito esse termo para designar o que sempre nomeei burrice. Foi na mesa de bar que ouvi pela primeira vez. Depois, ficou corriqueiro justificar minha pausa após uma pergunta que não entendi. É que sempre foi assim, vou tentar explicar.
Sou artista porque foi a única coisa que deu certo, defeito mesmo. Note que no começo desse texto estava confuso para entender como na casa da centena não cabiam três algarismos ou na casa da dezena dois. Demorei muito para aprender a ler as horas. Esquerda e direita me fizeram reprovar uma vez na autoescola. Victor olhe para a lousa. Falava a diretora no corredor.
As narrativas que não consigo contar ou reproduzir nunca existiram de fato para mim. Certa vez, uma libélula entrou pela janela do escritório e morreu no papel branco em cima da mesa. Uma tarde inteira passou e não percebi. Tirei as asas do pequeno corpo verde-água e uma trama complexa começou a ser desenhada pelo lápis que segurava. Aprendi que para enxergar, precisava desenhar.
O mundo microscópico seria o próximo a ser revelado. Nas aulas de física, enquanto miravam no universo e os movimentos dos planetas, desenhava estômatos no caderno de biologia. Aos sábados era dia de pegar aguapés na lagoa do sítio e capturar as planárias das raízes, depois colocá-las na lâmina e passar horas no microscópio observando.
A escrita também ajudava a organizar o pânico das situações-limite, espécie de exorcismo, indo em direção a outras vidas e outras mortes. O acúmulo da desordem sempre foi limite do traço, da sombra, do volume. Seja do verbo ou do desenho, a emergência da ficção é o que me manteve vivo até agora.
A pergunta sobre como ser inventivo é fácil de ser respondida. O tumulto não se organiza em portfólio, nem em livros escritos, mas em sensações opacas e neons. Um estado febril na busca de outra narrativa que comporte o brilho. O tempo em suspensão possui beleza específica, e ele só se dá quando o neuro-divergente sobe no palco a procura de algum microfone ou formiga, talvez.

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.